Olhar a morte nos olhos - Reflexões de um médico cristão
A morte é um mistério infinito. São poucos os que podem
falar dela na primeira pessoa e escassos os relatos de quem recuperou de um
diagnóstico confirmado de morte clínica. Para o evangelista Billy Graham,
“ninguém está verdadeiramente preparado para viver enquanto não estiver
preparado para morrer”.
A minha reflexão pessoal acerca da morte começou durante
a adolescência, após a morte súbita de pessoas que me eram próximas. Prosseguiu
durante o curso de medicina, especialização em cirurgia vascular e coordenação
de colheita de órgãos e transplantes de dador cadáver. Na minha dissertação de
mestrado em bioética investiguei o conceito de morte cerebral e suas implicações
médicas, éticas e legais. Porém, as respostas mais relevantes que encontrei
sobre o problema da morte não foram obtidas a partir de filósofos, teólogos,
sociólogos ou profissionais de saúde. Foram o resultado da minha fé em Jesus
Cristo, o único que pode declarar com toda a autoridade que está vivo e tem
poder sobre a morte e sobre o mundo dos mortos (Apocalipse 1:17b-18).
Martin Luther King Jr., ativista pelos direitos civis dos
negros e pastor baptista, escreveu: “Foi através de Cristo que Deus nos
libertou do aguilhão da morte. A nossa vida terrestre é o prelúdio de um novo
despertar, e a morte é a porta que se abre para a nossa entrada na vida
eterna”.
A morte é considerada uma realidade dramática da
existência humana e o principal tabu dos tempos modernos. É um
acontecimento único, irreversível e irrepetível para cada pessoa. A verificação
da morte é um ato médico e o seu diagnóstico resulta quase sempre de uma paragem
cardiorrespiratória irreversível, sendo utilizados os seguintes critérios:
ausência de batimentos cardíacos e de movimentos respiratórios; de resposta a
estímulos; presença de pupilas fixas e dilatadas e um traçado isoelétrico no
monitor cardíaco.
A morte é considerada uma realidade dramática da
existência humana, que partilhamos com os outros seres vivos, conforme nos
recorda o rei David: “A grandeza de um homem não o salva da morte; como todos
os animais, também ele tem de morrer” (Salmos 49:21). No entanto, não existe
nos animais a consciência de que a vida tem um fim. O culto dos mortos é uma
caraterística distintiva da espécie humana, que revela uma crença na
imortalidade em todas as épocas e culturas.
O escritor C. S. Lewis constatou que, num certo sentido,
a guerra não aumenta a morte, pois a morte é total em cada geração. A morte é
também o acontecimento mais igualitário da existência humana, pois não faz
discriminação entre homens e mulheres, entre ricos e pobres, ou entre
celebridades e gente comum. Na hora da morte, somos todos iguais.
A morte é também imprevisível, embora possamos
condicionar a nossa longevidade pela forma como vivemos. A maioria das doenças,
como as cardiovasculares e oncológicas (as duas principais causas de morte no
mundo) são influenciadas por fatores de risco comportamentais relacionados com
o estilo de vida. Estudos recentes revelaram que a adoção de comportamentos
saudáveis como não fumar, controlar o peso, fazer exercício físico diariamente,
evitar bebidas alcoólicas e fazer uma alimentação saudável, rica em vegetais,
podem contribuir para uma menor incidência de doenças cardiovasculares, cancro e
diabetes, e um aumento da esperança de vida.
Os enormes progressos médicos e tecnológicos alcançados
nas últimas décadas, na área da saúde, levaram a um aumento considerável da
esperança média de vida. Em Portugal, passou de 67,1 anos em 1970 para 80,9
anos em 2019. Para este aumento da longevidade contribuiu mais a prevenção do
que a possibilidade de tratamento de muitas doenças, através da melhoria das
condições higieno-sanitárias e alimentares, vacinação eficaz e acesso
generalizado aos serviços de saúde. É uma história de sucesso uma vez que, ao
longo da história da humanidade, a maioria das pessoas não ultrapassava os 35
anos. Mas apesar de todos os êxitos no combate à doença, mais cedo ou mais
tarde chega sempre o momento da morte.
Porém, a morte não é o fim do ser humano, pois cada um de
nós é uma entidade biopsicossocial e espiritual, constituída por um corpo e uma
alma e/ou espírito. A dimensão espiritual do ser humano é eterna e, por isso,
não desaparece nem é aniquilada pela morte corporal.
É minha convicção pessoal, baseada na Palavra de Deus,
que em Jesus Cristo, Deus feito Homem, encontramos a resposta para o problema
existencial da morte, considerada um inimigo que não fazia parte dos planos
originais do Criador. A morte sacrificial e voluntária de Jesus, na cruz do
calvário, confere sentido à vida de todos aqueles que, ao longo dos séculos, O
aceitam e seguem como o Messias prometido e o único caminho para Deus. Jesus morreu para libertar “os que ao longo
de toda a vida estiveram escravizados pelo medo da morte” (Hebreus 2:15).
Assim, podemos encarar a morte e o futuro com esperança. O apóstolo Paulo, pouco tempo antes de
ser morto por ordem do imperador romano, manifestou essa mesma confiança
inabalável nas promessas de Deus (2 Timóteo 4:6-8).
Aprecio muito a história de vida de Bonhoeffer, pastor e
teólogo cristão, que permaneceu firme na sua fé em Cristo, na Alemanha nazi, e
foi morto por enforcamento. Quando estava a subir para o cadafalso, disse-lhe o
carrasco: “Este é o fim”. Respondeu Bonhoeffer: “Para mim é o princípio da vida”!
A maioria de nós não sabe em que momento fará a última
viagem e irá, finalmente, ter a oportunidade de “olhar a morte nos olhos”. Pode
ser daqui a muitos anos ou nos próximos minutos. Uma coisa é certa: as decisões
que tomamos hoje, enquanto vivemos neste mundo, limitados pelo tempo e pelo
espaço, terão consequências eternas. Após a morte, não haverá outra
oportunidade de arrependimento e de termos paz com Deus, conforme lemos na
Carta aos Hebreus 9:27: “está determinado que os homens morram uma só vez e que
depois sejam julgados por Deus”.
Eu encontrei a paz com Deus e a certeza da salvação e da
vida eterna quando entreguei a minha vida a Jesus Cristo, arrependendo-me dos
meus pecados e crendo que Ele morreu na cruz em meu lugar. A partir desse
momento nunca mais tive medo da morte, pois sei para onde vou quando morrer. E
você?
Dr. Jorge
Cruz
(Versão resumida do opúsculo publicado pela Sociedade Bíblica Portuguesa)
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